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terça-feira, 3 de maio de 2011

Dia 3: o Regresso.


Ontem adormecemos tarde.

Estivemos a ponderar a possibilidade de fazer o caminho primitivo ou regressar a casa apenas com o caminho de S.Salvador na algibeira.

Quando fomos jantar ainda estivemos a conversar com um peregrino que tinha feito o caminho e que nos esteve a falar do primitivo....mas não nos disse nada de novo, apenas confirmou as nossas suspeitas do mau estado do caminho....agravado em muito pela chuva intensa da ultima semana.

Deixamos a decisão para a manhã de hoje.

Se estivesse a chover, regressavamos a casa, se o tempo o permitisse, fariamos o caminho.

Assim que o relogio despertou as 4h da manha ouviamos a chuva a bater na janela e o vento abanava com vigor as arvores lá fora...
Mau sinal....
Ainda adormecemos novamente para ver se alguma coisa mudava...

  Mas continuou a chover...

Apanhamos então uma camioneta com destino a Santiago de Compostela por volta das dez da manhã... Queriamos pelo menos mostrar ao Eusébio, um estreante nestas andanças, a sensacão de chegar a Santiago...e abrir-lhe o apetite para uma próxima oportunidade.

Chegados a Santiago, percorremos os ultimos metros de acesso á catedral em silencio.

 Foi uma chegada em grupo, porque é assim que o caminho deve ser. começamos e acabamos todos ao mesmo tempo. Pelo meio, nestes dias que nos uniram, veio ao de cima a capacidade de superação de obstáculos, que só conseguimos porque estavamos juntos e alimentamos essa força, comandada pelo sonho.

Agora no comboio de regresso a casa...e perante um sol brilhante vamos contentes pelo feito alcançado e expectantes de voltar novamente ao caminho para cumprir este passo que foi iniciado.



Para finalizar em grande deixo-vos com as melhores imagens que demonstram algumas das dificuldades deste caminho, que foram superadas ...a muito custo...mas é esse ar de satisfação que ninguém nos tira, e que nos faz querer repetir.









e estas caras de satisfação?





Obrigado a todos pelo apoio, e até ao próximo passo....Ultreia!

Dia 2...quando os extremos se tocam...

Depois de uma noite bem dormida, descemos para tomar o pequeno almoço.
Deu pra perceber que eramos os unicos hospedes no hotel...quando a mesa estava posta para 3...



Pequeno almoço buffet foi bastante reforçado e saimos com energia redobrada para percorrer o caminho.





















Alguem tinha ouvido as nossas preces e tinhamos pela frente um dia de ceu azul e ligeira neblina...fazendo com que o bosque onde iamos passando tivesse um encanto especial...
Claro que o alcatrão já tinha desaparecido e estavamos já a trepar pelos trilhos...







Para começar o dia da melhor maneira tivemos um encontro imediato com um grupo de cavalos que pastava serenamente....












estavamos a invadir o território deles e tivemos de recuar quando um dos garanhões resolveu mostrar-nos quem mandava.

 Num ápice, estavamos ali especados a pensar no que haviamos de fazer pois não havia alternativa ao caminho a não ser aquele mesmo.

A natureza impunha-se e tivemos de esperar pacientemente que os cavalos resolvessem deixar-nos passar...e foi o que acabou por acontecer...começaram a afastar-se e nós seguimos o nosso caminho.




Sabiamos que a etapa de hoje ia ser dura...só não sabiamos se iamos aguentar e se conseguiriamos chegar a Oviedo.







Começamos a subir...a subir e chegamos a um ponto em que se acabavam os trilhos duros, mas fantasticos...e começavam os caminhos de cabras em que tinhamos de carregar as bikes as costas.









Tivemos ainda o privilegio de passar num desfiladeiro fantastico...aquele que eu vi numa foto e que nos fez percorrer este caminho.



















Mas depois da valente e longa subida, logo avistamos o paraíso....











Não foi facil, mas a primeira montanha estava conquistada...mas rapidamente tinhamos outra e mais outra pela frente..cada uma mais alta que a outra, cada uma especial e com obstaculos diferentes.























Outras vezes, na falta de um caminho  delineado, era mesmo necessário  escolher cuidadosamente o caminho por onde seguir...




 A segunda montanha não tinha trilhos nem caminhos de cabra, tratava-se apenas de uma montanha completamente alagada pelas muitas fontes de água e pelas fortes chuvas nos ultimos dias.







Rapidamente ficamos com os pés ensopados e custava cada vez mais escalar mais esta montanha. Como resultado, tinhamos tantos km feitos de bike, como de andar a pé a empurrar a bike.
Os km teimavam a aparecer e parecia que nunca mais saiamos do sitio.

Tal como ontem, passamos horas e horas sem ver ninguém...e não vimos mais nenhum peregrino no caminho.

Por volta do meio dia estavamos ja a atacar a super especial montanha do dia...esta aqui era uma mistura das duas anteriores, mas juntava-lhe mais dois ingredientes...lama, muita lama e vegetação rasteira [ picos ou silvas].

Pior do que enfrentar tudo isto nestas condições foi o facto de já não termos agua para beber e ainda não tinhamos almoçado.

Valeram as barras de cereais que o Eusebio trouxe e que nos iam dando energia.

O grande problema deste caminho que não é feito para bicicletas, é que não atravessa povoações nem tem qualquer tipo de apoio...é sempre pelo meio dos montes e deixa-nos com problemas de autonomia.

A muito custo e já na terceira montanha, iamos avancando lentamente até que o tempo resolveu pregar uma partida..tinhamos a chuva de volta....

O dia lindo de ceu azul estava rapidamente a transformar-se e começava a adivinhar-se o pior...

Conseguimos chegar ao topo da terceira[ ou quarta ou quinha..ja tinhamos perdido a conta] já debaixo de chuva por vezes forte....

As nossas ambições estavam comprometidas pois a velocidade media do dia era de 6km/h...era preciso continuar a superar os obstáculos e o animo ia desaparecendo.

Começou a chover cada vez mais e começava a cair um autentico diluvio...acompanhado de saraiva ou granizo como lhe queiram chamar....á nossa volta não tinhamos nada onde nos pudessemos abrigar e por isso...levamos com autenticas pedras geladas.

Perante tal diluvio, estavamos completamente molhados, ensopados e gelados.. o pior é que não sabiamos se os alforges iam conseguir aguentar sem meter agua....e para quem leva telemoveis, maquina fotografica e roupa seca para alguns dias ali dentro, dava-nos muito que pensar....

Durante mais de meia hora foi assim...sem dó nem piedade...sem fé nem animo...

Conseguimos um abrigo e esperamos pacientemente que a chuva parasse.


Nao parou totalmente, e por isso continuamos mesmo assim, depois de trocarmos as camisolas por outras secas e mais quentes. Foi dificil aquecer, já que estavamos a tremer e a unica salvação era uma manta de aquecimento, mas que demorou e muito a fazer o efeito desejado.


Depois de tanto subir [ chegamos aos 1380 m] chegou a hora de descer ....aí os km foram passando bem mais rapido e as descidas com inclinação superior a 10% obrigavam a cuidados redobrados.

Acabamos por chegar a Oviedo, final do Caminho de S. Salvador já quase a anoitecer.




 Este caminho ja esta.

Ja tem a nossa marca, o nosso suor, a nossa ambição e a nossa total entrega.

Quanto ao proximo, o caminho Primitivo, já sabemos onde começa, mas muito provavelmente vai ficar adiado devido ao temporal que pelas previsões do tempo vai continuar a fazer nos proximos dias aqui nas asturias e que está a fazer com que o caminho esteja impraticavel.

Amanhã de manhã decidimos....mas acho que ja sabemos qual vai ser...



Ultreia!